Por Arnaldo V. Carvalho



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São horas e horas. É preciso paciência. O que falta? Por que não acontece? Essa dor toda, é para ser assim mesmo? Tenho acompanhado o trabalho de grandes profissionais do parto,  que já desistiram de dizer que “pode ser pouco doído”, que é mais prazer do que é dor. Uma delas é enfática: “é dor cachorra mesmo”. Isso deve preparar as mães que romantizam um parto humanizado muito tranquilo. É útil porque é real. Então talvez muitas precisem mesmo ouvir isso e enfrentar o fato. Mas eu quero lembrar antes de mais nada do “coquetel do amor”: um monte de endorfinas[1] acompanhadas inclusive do maior pico de oxitocina (o mesmo hormônio do prazer do orgasmo!) da história da mulher. Quero lembrar que há um corpo recebendo muitos sinais, ruins mas também ótimos. Não é como alguns homens desavisados acreditam (os que assistiram um filme em que dois homens simulam “dores do parto” com eletrodos na barriga então, esses se assustam “para sempre”, em total desconhecimento da fisiologia da mulher e seu coquetel do amor).

 

Onde ele está? Por que não tem protegido como talvez devesse?

 

O manejo natural das circunstâncias do trabalho de parto começa pela proteção e favorecimento do coquetel do amor. O cientista Michel Odent[2] é taxativo (e nos cita inúmeras investigações científicas que dão base a isso*) quando diz que frio, falta de privacidade, excesso de luz, medo, excesso de intervenções, tudo isso impede o coquetel do amor de ser feito.

 

Protegeu, favoreceu? É preciso paciência. Devem ter visto o que escrevi sobre o encontro do obstetra Rodrigo Vianna com a parteira tradicional mexicana Angelina[3]. O diferencial dela é a paciência. E para ter paciência, precisa ter disponibilidade. Como fazer isso no mundo de hoje?

 

Os profissionais do parto estão tendo um trabalho imenso, em parte porque estão substituindo papeis que não são deles na natureza. A mãe mais experiente se foi. Os grupos de mulheres se foram. As pessoas que podem estar no cenário, com tempo, reforçando o poder se foi. E os profissionais não têm a disponibilidade. Os que oferecem alta disponibilidade são altamente requisitados, nem sempre acessíveis. E mesmo assim ela é menor do que a do papel natural, de quem não tem pressa.

 

O manejo natural das circunstâncias do trabalho de parto, portanto, passa por um trabalho antecipado, não simplesmente junto a mãe, mas talvez no sentido de re-criar poder e responsabilidade nessas pessoas de laços. Mães, irmãs, amigas. Há papéis naturais para elas, que podem ser importantes. Mas nem sempre é possível.

 

Mas aí entramos num campo onde teríamos que dividir o artigo em dois. Um para falar do que cerca as circunstâncias (como o aspecto que citei), e outro para falar delas em si. Das dores, contrações, ansiedades, dilatação, etc. e o que fazer com tudo isso.

 

Difícil, porque é tudo muito ligado, muito ligado mesmo. Entendo que muitos estão acostumados com esse modelo: nada foi feito pelo que cerca as circunstâncias ocorridas no trabalho de parto, e lá está a mãe a chorar e gritar, lá está o pai apavorado querendo fugir ou lá fora querendo entrar, e lá podem estar um sem número de comportamentos de profissionais do parto que não condizem com nossa premissa de proteger a mãe e sua natureza poderosa. É o sorriso do tipo “hihi é assim mesmo” (não ajuda), são conversas paralelas “nada a ver”, é um disfarce de tranquilidade, uns passatempos que não, não ajudam. Aliás, quase nunca ajudam as palavras. Não ajudam porque atrapalham o desligar do neocortex, por sua vez bloqueia o coquetel do amor, e sem coquetel do amor, não tem parto bacana. Na exata mesma linha com que citei premissas de Odent no início do texto.

 

Mas sim, vocês estão acostumados com um modelo e querem o manejo das circunstâncias. Vou falar rapidamente algumas coisas que a gente pode fazer. Muitas pessoas que me lêem agora já conhecem algumas dessas intervenções: dá para usar aromaterapia; acupuntura e shiatsu; rebozo; água quente; toque; respirações, sons muito bem direcionados… Tudo isso em momentos muito acertivos. A gente vai sim falar sobre isso tudo aí em Campo Grande.

 

Mas por favor, não esqueçam do que está no entorno das circunstâncias. É muito importante.

 

Abraços,
Arnaldo

 

* Arnaldo V. Carvalho é um psicoterapeuta corporal e naturopata, militante do cenário do nascimento e da saúde primal (da concepção ao primeiro ano de vida do bebê), e estará vindo do Rio de Janeiro para ensinar técnicas terapêuticas para profissionais da área, no Laço Materno. Confira (adicionar link para o evento)


Notas

  1. Endo-orfinas: As orfinas endógenas, uma família química de hormônios cujo poder é mais reconhecido em uma orfina exógena, a morfina, com altíssimo poder analgésico.
  2. Conheçam o banco de dados Primal Health Reasearch (inglês).
  3. Publicado no blog Arnaldo V. Carvalho

 

O professor e terapeuta carioca Arnaldo V. Carvalho, militante do cenário que envolve o nascimento, virá ao Laço Materno nos dias 14 e 15 de abril de 2018 ensinar técnicas especiais de cuidado com a mãe-bebê durante todas as suas fases, inclusive no trabalho de parto e pós-parto.

O Laço Materno estará publicando, em primeira mão, uma série de artigos inéditos, Ensaios do Nascimento. Eles abordarão tópicos importantes sobre o tema, ajudarão os profissionais de saúde da área e as mães grávidas a estarem um passo à frente em seus cuidados e empoderamentos e poderão ser aprofundados na vinda do professor.

Acompanhe aqui todos os textos da série “Ensaios do Nascimento” do professor Arnaldo V. Carvalho.

Ensaios do Nascimento – Textos inéditos sobre o gestação, parto e pós parto: Arnaldo V. Carvalho escreve para o público do Laço Materno

Ensaios do Nascimento 1 – Contatos Imediatos: os contatos que o bebê no útero tem com o mundo exterior e seus impactos na vida

Ensaios do Nascimento 2 – Lugar de homem no parto é onde?

Ensaios do Nascimento 3 – As intervenções terapêuticas na gravidez e seus impactos no empoderamento da mulher

Ensaios do Nascimento 4 – Sexo e gravidez: o “detalhe Z”

Ensaios do Nascimento 5 – Gravidez, enjoos e a saúde placentária

Ensaios do Nascimento 6- O trabalho de parto e o manejo natural das circunstâncias

Ensaios do Nascimento 7 – Preparação para um pós-parto sem sustos

Ensaios do Nascimento 8 – Gravidez e Naturopatia

Ensaios do Nascimento 9 – O pensamento terapêutico oriental e a gravidez

Ensaios do Nascimento 10 – Ervas, aromas e alimentação na gravidez

Ensaios do Nascimento 11 – A gravidez da transcendência pessoal

Arnaldo V. Carvalho Therapies for a New Conscience www.arnaldovcarvalho.com +55 21 99246-5999