Por Arnaldo V. Carvalho

 

Amig@s, de repente a gente se separou tanto dos outros mamíferos que ficou esquisito entender porque da macaquinha à ratinha, uma vez em trabalho de parto, assumem comportamentos que se repetem em toda as espécies dessa classe. Quem tem animais em casa talvez compreenda de forma mais imediata alguns desses comportamentos, como de buscar cantinhos mais reservados e de preferência, mais escurinhos, sombreados. Afastar-se significa proteção e liberdade para que a mãe possa dedicar 100% de seu ser aos sinais internos, à própria natureza do momento. E quando todos os recursos da fisiologia estão dedicados ao trabalho de parto, ele tende a ser bem sucedido, com mãe e bebê passando muito bem por tudo, sendo um momento potente, positivo e que marcará positivamente mãe e bebê para sempre.

 

Mas aí a mãe humana, embora mamífera, perde todo esse contato com seu instinto, e é levada para um lugar super iluminado, com um monte de gente desconhecida entrando e saindo, olhando para ela, fazendo perguntas e por vezes até mesmo pedindo que ela preencha formulários! Ela está fora de seu habitat, e aliás, em verdade é que quase sempre já traz em si uma coleção de relatos negativos, advertências e intervenções, de modo que não se sente capaz. Não se sente capaz e recorre a ajuda. Mas a família encolheu; obstetrizes ou obstetras não tem tempo; então surge a doula… Mas não é tempo o suficiente também, ela tem outras gestantes para cuidar. As amigas seguem suas vidas, as que são mães não tem tempo, as que não são não compreendem… Então surge o companheiro/marido/pai. Que bom que ele está ali! Ele, que há algumas décadas vem sendo chamado à participação e cumplicidade de tudo o que diz respeito à vida do casal, aliás muito antes de tornarem-se pai e mãe daquele bebê que está prestes a sair do ventre. Mas ele também está contaminado por relatos negativos e advertências e a essas somam-se o desconhecimento da fisiologia da mulher, sua total falta de holofote no trabalho de parto (raramente admitida), a falta de familiaridade com a expressão contundente da mulher – de dor, sofrimento e medo, tudo junto e misturado. Tudo isso com muito suor, em um corpo que vinha inchado, lento, e com o qual ele não chegou a aprender a conviver totalmente. É verdade, ele quer sentir-se “útil”, ou mesmo pretende co-protagonizar o ato. Ele quer ser poderoso em apoiar sua mulher. Quer se mostrar forte, um pilar de sustentação, quer cumprir com seu “contrato de cumplicidade” até o fim. Os mais dedicados buscarão na Internet um monte de informações sobre o processo da gravidez e do parto, por vezes participarão de encontros de grávidas, farão muitas perguntas à equipe de saúde que está acompanhando tudo. Os mais empolgados pretendem filmar tudo, pretendem cortar cordão, pretendem tirar suas roupas e amparar suas companheiras posicionando-se atrás delas. Igualzinho viram nos filmes e fotos e relatos que circulam nas redes, acompanhados de relatos sobre partos “mágicos”. Ele quer ser incrível, quer viver esse algo incrível no qual ouviu falar, ele quer, quer muito ter motivos para se orgulhar e que se orgulhem dele.

 

Mas sabem… Para ter esse uau, é preciso uma naturalidade que a maioria não tem. Tem que ter um contato prévio com um universo e se isso não ocorre, pode levar o ato para o desastre. E aí, aquela mamífera-fêmea que vive na mãe e que precisa tanto estar presente pro parto bacana acontecer, não aparece. Neurônios-espelho, sabe o que é? É um conjunto de células do sistema nervoso que faz as pessoas “imitarem” o que vêem. Como no bocejo. Mas vale para todos os sentimentos. E se os neurônios-espelho da mulher em trabalho de parto captarem o medo (pelos olhos, pelo cheiro, seja pelo que for), não adianta companheiro: você está atrapalhando mais do que ajudando. Porque o medo, que é no final das contas o manejo mais importante do trabalho de parto, é ele que impede a dilatação, que impede que o bebê saia naturalmente. Então é preciso que o pai e a mãe estejam muito conscientes de que ele não deve ser presença obrigatória no local de parto.

 

E para isso, vale a gente voltar ao papel do primitivo. A gente poderia se perguntar: afinal o que os machos-mamíferos-primitivos fazem enquanto suas companheiras estão parindo? Eles guardam a porta da caverna, protegem os ninhos, buscam provimentos. Formulários? Com ele. Muito entra e sai no quarto/sala do parto? Papel dele segurar do lado de fora outros familiares, e mesmo cutucar o médico quanto a muito entra e sai de enfermeiras desconhecidas (por exemplo). É papel primitivo do homem resguardar o ambiente onde o parto acontece, não necessariamente ser parte desse ambiente. Não estamos aqui para tolir os pais e os casais em trabalho de parto, não é isso. Apenas reafirmar que há uma segunda e ótima opção para aqueles que não se sentirem naturais, ou para aquelas que simplesmente não desejam a presença de seus maridos no trabalho de parto.

 

Dá para ele se orgulhar também, e muito, de ter protegido o ambiente, e sem dúvida, se orgulhar de sua esposa, que empoderada ficou e teve seu bebê com a força de sua natureza fazendo parte de tudo.

 

Aí você pode estar pensando: mas dá para negociar com esse pai, essa mãe e suas vontades ou modelos de “como deve ser” que se inscreveram na mente? A gente conversa mais sobre isso no curso e no grupo Parapapais. Até a próxima!

Arnaldo

 

O professor e terapeuta carioca Arnaldo V. Carvalho, militante do cenário que envolve o nascimento, virá ao Laço Materno nos dias 14 e 15 de abril de 2018 ensinar técnicas especiais de cuidado com a mãe-bebê durante todas as suas fases, inclusive no trabalho de parto e pós-parto.

O Laço Materno estará publicando, em primeira mão, uma série de artigos inéditos, Ensaios do Nascimento. Eles abordarão tópicos importantes sobre o tema, ajudarão os profissionais de saúde da área e as mães grávidas a estarem um passo à frente em seus cuidados e empoderamentos e poderão ser aprofundados na vinda do professor.

Acompanhe aqui todos os textos da série “Ensaios do Nascimento” do professor Arnaldo V. Carvalho.

Ensaios do Nascimento – Textos inéditos sobre o gestação, parto e pós parto: Arnaldo V. Carvalho escreve para o público do Laço Materno

Ensaios do Nascimento 1 – Contatos Imediatos: os contatos que o bebê no útero tem com o mundo exterior e seus impactos na vida

Ensaios do Nascimento 2 – Lugar de homem no parto é onde?

Ensaios do Nascimento 3 – As intervenções terapêuticas na gravidez e seus impactos no empoderamento da mulher

Ensaios do Nascimento 4 – Sexo e gravidez: o “detalhe Z”

Ensaios do Nascimento 5 – Gravidez, enjoos e a saúde placentária

Ensaios do Nascimento 6- O trabalho de parto e o manejo natural das circunstâncias

Ensaios do Nascimento 7 – Preparação para um pós-parto sem sustos

Ensaios do Nascimento 8 – Gravidez e Naturopatia

Ensaios do Nascimento 9 – O pensamento terapêutico oriental e a gravidez

Ensaios do Nascimento 10 – Ervas, aromas e alimentação na gravidez

Ensaios do Nascimento 11 – A gravidez da transcendência pessoal

Arnaldo V. Carvalho Therapies for a New Conscience www.arnaldovcarvalho.com +55 21 99246-5999